Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede

O texto que segue é a conferência intitulada Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede, apresentada por Spadaro em julho no Seminário de Comunicação para os Bispos do Brasil (SECOBB), no Rio de Janeiro. A tradução é da IHU On-Line.

Eis o texto.

A Internet faz parte da nossa vida cotidiana. Se até alguns anos atrás, a Rede era ligada à imagem de alguma coisa técnica, que requeria competências específicas sofisticadas, hoje é um lugar de convivência para estar em contato com os amigos que moram longe, para ler as notícias, para comprar um livro ou reservar uma viagem, para compartilhar interesses e ideias. E isso também em movimento, graças àqueles que uma vez se chamavam “celulares” e que hoje são verdadeiros computadores de bolso.

Uma Rede ao alcance das mãos

A Internet é um espaço de experiência que cada vez mais está se tornando parte integrante, de maneira fluida, da vida cotidiana. É um novo contexto existencial, consequentemente, não é um “lugar” específico dentro do qual se entra em alguns momentos para viver on-line, e do qual se sai para retornar à vida off-line. A Rede permanece assim, ao alcance das mãos (também em sentido literal); ela começa a incidir sobre a capacidade de viver e de pensar. Da sua influência depende, em certa medida, a percepção de nós mesmos, dos outros e do mundo que nos circunda e daquilo que agora não conhecemos.

No fundo, o homem tem sempre buscado entender a realidade por intermédio da tecnologia. Pensemos como a fotografia e o cinema mudaram o modo de representar as coisas e os acontecimentos; o avião fez-nos compreender o mundo de modo diferente da carroça; a imprensa fez-nos compreender a cultura de maneira diversa. E assim por diante. A “tecnologia”, por conseguinte, não é uma coleção de objetos modernos e de ponta. Não é nem mesmo, como creem os mais céticos, uma forma de viver da ilusão de domínio sobre as forças da natureza em vista de uma vida feliz. Seria simplista considerá-la somente fruto de uma vontade de poder e dominação. Ela, escreve Bento XVI, na Caritas in Veritate, “é um fato profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem”. Na técnica, exprime-se e confirma-se o domínio do espírito sobre a matéria [1], e, ao mesmo tempo, manifestam-se as aspirações do homem e as tensões de sua alma.

O advento da Internet foi, claramente, uma revolução. Todavia é uma revolução com sólidas raízes no passado: reproduz antigas formas de transmissão do saber e da vida em comum, exibe nostalgia, dá forma a desejos e valores tão antigos quanto o ser humano [2]. Refletindo sobre a Internet, requer não somente imaginar a perspectiva de futuro que oferece, mas considerar também os desejos e as expectativas que o homem sempre teve e às quais tenta responder, ou seja, conexão, relação, comunicação e conhecimento. E nós sabemos bem como sempre a Igreja tinha, no anúncio de uma mensagem e nas relações de comunhões, dois pilares fundamentais de seu ser.

A pergunta, neste ponto, surge espontânea: Se hoje a revolução digital modifica o modo de viver e de pensar, isso não terminará por abarcar também, de alguma maneira, a fé? Se a Rede entra no processo de formação da identidade pessoal e dos relacionamentos, não terá também um impacto sobre a identidade religiosa e espiritual dos homens de nosso tempo e sobre a própria consciência eclesiástica? Bento XVI, com sua mensagem para a 45.ª Jornada das Comunicações Sociais e o discurso à Plenária do Pontifício Concílio para as Comunicações, indicou um caminho de modo claro e determinado. Aqui estão as suas perguntas: “Quais desafios que o assim chamado ‘pensamento digital’ representa para a fé e para a teologia? Quais suas perguntas e suas solicitações?”.

Internet como «ambiente»

A Internet não é uma simples “ferramenta” de comunicação que se pode ou não usar, mas um “ambiente” cultural que determina um estilo de pensamento, contribuindo para definir também um modo particular de estimular a inteligência e de estreitar as relações, e, mesmo, um modo de habitar o mundo e de organizá-lo. Nesse sentido, a Rede não é um novo “meio” de evangelização, mas, em primeiro lugar, um contexto em que a fé é chamada a expressar-se não por uma mera “vontade de presença”, mas por uma conaturalidade do cristianismo com a vida dos homens. O desafio da Igreja não deve ser de que modo “usar” bem a Rede, como se acredita, mas é como “viver” bem na época da Rede. A Internet é uma realidade destinada a ser cada vez mais transparente e integrada em relação à vida, por assim dizer, “real”. Este é o verdadeiro desafio: aprender a ser wired, conectado, de maneira fluida, natural, ética e, até mesmo, espiritual; experimentar a Rede como um dos ambientes da vida.

É evidente, por conseguinte, que a Internet, com todas as suas inovações das antigas raízes, coloque para a Igreja uma série de interrogações relevantes de ordem educativa e pastoral. Todavia há alguns pontos críticos sobre a própria compreensão da fé e da Igreja. Tentarei estabelecer alguns deles para iniciar uma discussão à luz das aparentes incompatibilidades, bem como da evidente conaturalidade.

Como muda a busca por Deus

A primeira questão que desejo levantar é de ordem antropológica. A “navegação” na web é hoje uma forma comum de conhecimento. Atualmente, acontece sempre mais frequentemente que, no momento em que se tem a necessidade de uma informação, consulte-se a Rede para obter uma resposta por intermédio de um motor de busca como Google, Bingou outro ainda. A Internet parece ser o lugar das respostas. Essas, no entanto, raramente são unívocas: a resposta é uma coleção de links que remetem a textos, a imagens e a vídeo. Cada pesquisa pode implicar uma exploração de territórios diferentes e complexos, dando até a impressão de uma certa exaustividade. Que fé nós encontramos nesse espaço antropológico a que chamamos de web?

Digitando em um motor de busca a palavra God ou até mesmo religion, spirituality, obtemos uma lista de centenas de milhões de páginas. Na Rede, observa-se um crescimento de necessidade religiosa que a “tradição” parece enfrentar dificuldades para satisfazer. O homem, na busca de Deus, lança-se hoje em uma navegação. Quais são as consequências? Pode-se cair na ilusão de que o sacro ou o religioso estão ao alcance de um clique no mouse. A Rede, exatamente graças ao fato de que pode conter tudo, pode ser facilmente comparada a uma espécie de grande supermercado da religião. Iludimo-nos, por conseguinte, pensando que o sacro permanece “à disposição” de um “consumidor” para o momento da necessidade. O Evangelho aparece apenas como uma notícia entre muitas outras.

O Evangelho, todavia, “não é uma informação entre as outras – afirmava, em 2002, o então Cardeal Ratzinger –, uma linha, sobre a mesa, perto de outra”, mas é “a chave, uma mensagem de natureza totalmente diferente do monte de informações com que nos inundam dia após dia”. Continuava o atual Pontífice: “Se o Evangelho aparece apenas como uma notícia entre muitas, ele pode, talvez, ser descartado em favor de outras mensagens mais importantes. Mas como é que a comunicação, a que nós chamamos de Evangelho, faz para entenderem que essa é exatamente uma forma totalmente diferente de informação – no nosso uso da linguagem, mas preferivelmente num “desempenho”, num processo vital por meio do qual apenas o instrumento da existência pode encontrar o seu tom adequado?” [3].

O desafio que temos daqui para frente é sério, porque assinala a demarcação entre a fé como “uma mercadoria” a ser vendida de modo sedutor e a fé como ato de inteligência do homem que, motivado por Deus, dá a Ele livremente sua própria aprovação. É, portanto, necessário hoje, considerar que somos realmente capazes de escapar sempre, e de alguma maneira, à lógica do “motor de busca” e que o “googleamento” da fé é impossível.

Recentemente, o Google introduziu uma nova funcionalidade chamada de Instant, que permite obter os resultados da pesquisa já no momento em que ela é efetuada. Se tivermos habilitada a função Google Instant e digitarmos a palavraGod, descobriremos que, no “mercado” das respostas, Deus, claramente, não é mais “o ser do qual nada maior pode ser pensado”, segundo a definição de Santo Anselmo. De fato, apenas digitamos as letras “g”, “o” e “d”, e as sugestões automáticas em língua inglesa são, na ordem: “deuses do Metal”, e depois “deus da guerra”, “Godot” e “godzilla”, e esses são, respectivamente: um videogame, um festival de música heavy metal, a mais famosa obra teatral de Samuel Beckett e um monstro do cinema japonês. Deus, como tal (God), não está contido no campo das respostas possíveis. A busca por Deus na época do Google Instant é difícil…

Podemos confrontar a lógica do motor de busca instantânea com a dos motores “semânticos” e a sua lógica de funcionamento diferente, baseada no reconhecimento de uma pergunta específica que deve ser bem colocada. Um exemplo é oferecido por Wolfram|Alpha. Visto que, no momento, a única língua que ele compreende é a inglesa, é interessante notar a resposta que dá à pergunta Does God exist? (Deus existe?): “Desculpe-me, mas um pobre motor computacional de conhecimento, não importa quão potente possa ser, não está em posição de fornecer uma resposta simples a essa pergunta”.

Ali, aonde o Google vai fornecendo centenas de milhares de respostas indiretas, o Wolfram|Alpha dá um passo para trás. Qual a diferença? O Google é um motor sintático, e preocupa-se unicamente com o “censo” das palavras que estão no interior de um texto, mas sem tentar, de algum modo, determinar o contexto em que essas palavras são utilizadas. A pesquisa semântica tenta, ao contrário, avizinhar-se do modo de aprender do homem, procurando interpretar o significado lógico da frase e tentar compreender o significado do contexto. O modo como se coloca a pergunta pode influenciar a eficácia da resposta. Eis, por conseguinte, o que podemos aprender: mesmo na época da Rede, a busca por Deus deve nascer sempre de um contexto específico, não da capacidade de realizar uma pesquisa “ao acaso”, mas da paciente formulação de uma pergunta e do reconhecimento daquilo que se deseja verdadeiramente.

Entende-se, portanto, como a Rede “desafia” a fé na sua compreensão, graças a uma “lógica” que, cada vez mais, marca o modo de pensar dos homens.

O homem religioso na era da Rede

Em tal contexto, deve ser possível levar em consideração uma verdadeira mudança radical na percepção da questão religiosa. Uma vez o homem era firmemente atraído pelo religioso como uma fonte de sentido fundamental. Como a agulha de uma bússola, ele sabia que era radicalmente atraído para uma direção específica, única e natural: o Norte. Se a bússola não indica o Norte, é porque não funciona, e não, certamente, porque não existe o Norte. Então, o homem, especialmente com a Segunda Guerra Mundial, começou usar o radar, que serve para revelar e determinar a posição de objetos fixos ou móveis. O radar vai à busca de seu target, e implica uma abertura indiscriminada até mesmo ao mais brando sinal, e não uma indicação de uma direção específica. E assim também o homem começou a andar a procura de um sentido para a vida e, mesmo, de um Deus capaz de qualquer sinal de reconhecimento e que faça ouvir a sua voz. A expressão dessa lógica é a pergunta “Deus, onde estás?” Daqui também a espera de Godot e tantas páginas da grande literatura dos anos 1900, por exemplo. O homem era entendido, porém, como um “ouvinte da palavra” – para usar uma célebre expressão do teólogo Karl Rahner que, implicitamente, deu forma teológica à metáfora do radar – em busca de uma mensagem da qual sentia necessidade profunda. E hoje? Essa imagem ainda vale?

Na realidade, se bem que sempre viva e verdadeira, ela não continua. A imagem que hoje está mais presente é a do homem que se sente perdido, se seu celular está fora de área ou se seu dispositivo tecnológico (computador, tablet ou smartphone) não pode acessar alguma forma de conexão de rede sem fio. Se antigamente o radar estava em busca de um sinal, hoje, ao contrário, somos nós que procuramos um canal de acesso por intermédio do qual os dados possam passar. O homem de hoje, mais que procurar um sinal, está habituado a procurar estar sempre na possibilidade de recebê-lo, sem necessariamente procurá-lo. A extrema consequência é a lógica introduzida pelo sistema push que funciona de maneira oposta ao do pull. O primeiro implica o fato de que, quando um dado está disponível (um mail, por exemplo), eu o recebo de maneira automática, porque tenho um canal de recepção aberto. O segundo sistema implica o fato de que eu posso recuperá-lo, quando tiver vontade de estabelecer uma conexão.

Primeiro o homem da bússola e, depois, o radar estão-se transformando, consequentemente, em um decoder, ou seja, um sistema de acesso e de decodificação das perguntas com base nas múltiplas respostas que o alcançarão, sem que ele se preocupe em buscá-las. Vivemos bombardeados por mensagens, padecemos com superinformações, a assim chamada information overload. O problema, hoje, não é investigar o sentido da mensagem, mas decodificá-lo, reconhecê-lo com base nas múltiplas respostas que eu recebo. E pode estar “escondido” em qualquer lugar. Em um mundo que oferece respostas às perguntas que ainda não foram formuladas, a questão religiosa, na realidade, está se transformando em uma comparação entre respostas plausíveis e subjetivamente significativas. Primeiro, vêm as respostas, e é a partir delas que o homem é chamado a reconhecer as suas questões mais radicais e autênticas.

A grande palavra a redescobrir, agora, é uma velha conhecida do vocabulário cristão: discernimento. A resposta é o lugar de emersão da pergunta. Compete ao homem de hoje, por conseguinte, e, principalmente, ao formador, ao educador, deduzir e distinguir a verdadeira pergunta religiosa das respostas que ele vê serem oferecidas continuamente. É um trabalho complexo, que requer uma grande preparação e uma grande sensibilidade espiritual.

A Igreja: rede sem fio ou ramos de videira?

A segunda questão que desejo levantar é de ordem mais puramente eclesiológica. A Rede é hoje sempre mais lugar de networks e de communities. É possível imaginar uma vida eclesiástica essencialmente de Rede? Uma “Igreja de Rede”, em si e per si, é uma comunidade privada de qualquer referência territorial e de qualquer referência concreta na vida real. Pensemos nas “igrejas” geradas pelos tele-evangelistas, que produzem uma prática religiosa individual, que confirma a exasperada privatização dos propósitos de vida e o individualismo extremo da sociedade capitalista de consumo. Não é devido ao acaso, o grande sucesso dos sítios de espiritualidade difundidos, desvinculados de qualquer forma de mediação histórica, comunitária e sacramental (tradição, testemunho, celebração…), que tendem a incluir todos os valores religiosos unicamente na consciência individual e, frequentemente, de inspiração new age.

Essas tensões, como é óbvio, têm um impacto sobre o significado do “pertencimento” eclesiástico. Corre o risco de ser considerado o fruto de um “consenso” e, portanto, “produto” da comunicação. Em tal contexto, os passos da iniciação cristã são suscetíveis de serem resolvidos com um tipo de “procedimento de acesso” (login) à informação, talvez com base em um “contrato”, que permite também uma rápida desconexão (logoff). O fixar-se em uma comunidade resolver-se-ia em um tipo de “instalação” (set up) de um programa (software) em uma máquina (hardware), que se pode, portanto, facilmente até “desinstalar” (uninstall).

Por outro lado, a Rede, ao contrário, é destinada a ser sempre mais, não um mundo paralelo e distinto da realidade de todos os dias, mas aquela dos contatos diretos: as duas dimensões, a on-line e a off line, são chamadas a harmonizarem-se e a integrarem-se na medida do possível em uma vida de relações plenas e sinceras. A Igreja em si própria é cada vez mais entendida (e resulta compreensível) em termos de network. A Rede, dessa maneira, coloca questões que dizem respeito à mentalidade e ao modelo com que a Igreja pode ser compreendida no seu ser “comunidade” e no seu desenvolvimento. A Lumen gentium, no n.° 6, discorrendo sobre a natureza íntima da Igreja, afirma que ela se faz conhecer por intermédio de “várias imagens”. No passado, além das bíblicas, foram usadas também imagens de outro gênero para “significar” a Igreja; por exemplo, as metáforas navais e as de navegações [4]. Algumas imagens podem, de fato, também serem “modelos” eclesiológicos. Por “modelo”, entende-se uma imagem empregada de maneira refletida e crítica para aprofundar a compreensão da realidade [5]. A questão, a esta altura, é se hoje não se coloca a necessidade de adaptar-se seriamente ao modelo da “Rede” e a esse que dela deriva em nível de compreensão eclesiológica.

No seu Thy Kingdom Connected, Dwight J. Friesen, professor associado de Teologia prática junto à Mars Hill Graduate School de Seattle, imagina “o reino de Deus nos termos de um ser relacionalmente conectado com Deus, uns aos outros, e com toda a criação” [6]. Nessa visão, com certeza, podemos redescobrir aquela do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica que afirma a natureza sacramental da Igreja em seu ser como um “instrumento da reconciliação e da comunhão de toda a humanidade com Deus, e da unidade de todo o gênero humano” [7]. O pensamento de Friesen exprime uma visão da Igreja, da assim chamada emerging church, um amplo movimento complexo e fluido da área evangélico-carismática, que pretende reimplantar a fé cristã no novo contexto pós-cristão. Ela resulta em uma Igreja “orgânica, em rede, descentralizada, construída de baixo, flexível e sempre em evolução” [8].

Nessa imagem parece, porém, que a natureza e o mistério da Igreja diluem-se no ser um “espaço conectivo”, um hub de conexão, que suporta uma “autoridade conectiva” [9], cuja finalidade consiste substancialmente em conectar as pessoas. A ideia de Igreja que emerge dessa visão é a de uma Networked Church, que repensa e reinclui as estruturas das igrejas locais. O propósito primário da Igreja seria o de criar e desenvolver um ambiente de conexão onde é fácil as pessoas reagruparem-se em nome de Cristo.

A Igreja, nesse ponto de vista, portanto, seria uma estrutura de suporte em que as pessoas poderiam “reagrupar-se”. A Igreja não é um lugar de referência, não é em si um farol que emite luz, mas uma estrutura de suporte para fazer crescer o reino de Deus. Não se excluem, em tal perspectiva, “pastores, líderes, bispos, um pontífice, ou outros” [10], mas se os pretendem como network ecologist, como pessoas que têm a incumbência de manter em funcionamento a rede de conexões [11]. Essa visão oferece uma ideia da comunidade cristã que se apropria das características de uma comunidade virtual concebida como ágil, sem vínculos históricos e geográficos, fluida. Certamente, tal horizontalidade ajuda muito a compreender a missão da Igreja, que é enviada para evangelizar. Em efeito toda a definição daemerging ecclesiology é fortemente missionária. Nesse sentido, valoriza bastante a capacidade de conexão e de testemunho. Por outro lado, está em grande risco a compreensão da Igreja como “corpo místico”, que parece diluir-se em uma espécie de plataforma de conexão.

Agora, certamente, o relacionamento da Rede funciona, se as ligações (link) estiverem sempre ativas: no caso de um nó ou de uma ligação ser interrompida, a informação não será transmitida e a relação será impossível. A tessitura dos ramos da videira em cujas hastes corre uma mesma seiva não está distante da imagem da Internet, se tudo for levado em conta.

O que, de um ponto de vista católico, no entanto, deve ficar claro, é que a Igreja não pode ser compreendida como uma espécie de grande Rede de relações imanentes e horizontais, mas possui sempre um princípio e um fundamento “externo”. A “con-vocação” para ser parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja, não é, por conseguinte, redutível ao modelo sociológico da agregação. Esse é “o povo a quem Deus convoca e reúne a partir de todos os confins da terra, para construir a assembleia daqueles que, pela fé e pelo batismo, tornarem-se filhos de Deus, membros de Cristo e templos do Espírito Santo” [12]. O pertencimento à Igreja é determinado por esse fundamento externo, porque é Cristo que, por intermédio do Espírito, une a si intimamente os seus fieis; é ele que une a si uma Aliança eterna, tornando-a santa (Ef 5, 26) [13].

A Rede pode ser compreendida como uma espécie de grande texto autorreferencial e, portanto, puramente “horizontal”: ela não tem raízes nem ramos e, consequentemente, representa um modelo de estrutura fechada em si mesma. Se as relações em Rede dependem da presença e da eficácia de funcionamento das ferramentas de comunicação, a comunhão eclesial é, ao contrário, radicalmente um “dom” do Espírito. A ação comunicativa da Igreja tem nesse dom o seu fundamento e a sua origem. Sobre esse “dom”, funda-se sua natureza íntima.

A Graça: peer-to-peer ou face-to-face?

Compreende-se bem que um dos pontos críticos da nossa reflexão que estamos fazendo é, na realidade, o conceito de “dom”, de um fundamento externo. A Rede para a Igreja é sempre e de qualquer modo “furada”: a Revelação é um dom indedutível; e a ação eclesiástica tem nesse dom o seu fundamento e a sua origem. Mas é o próprio conceito de “dom” que hoje está mudando.

A Rede é o lugar do dom, na realidade. Conceitos como file sharing, free software, open source, creative commons,user generated content, social network, todos têm em seu interior, mesmo que de maneiras diferentes, o conceito de “dom”, de abatimento da ideia de “lucro”. A partir de um olhar mais atento, no entanto, mais que um “dom”, trata-se de uma “troca” livre tornada possível e significativa graças às formas de reciprocidade que resultam “profícuas” para aqueles que entram nessa lógica de troca. De qualquer maneira, é uma ideia “econômica” que tem em mente o conceito de “mercado”.

Na realidade, o nó consiste no fato de que a lógica do dom em Rede parece substancialmente estar ligada ao que, em slang, é chamado de freebbie, ou seja, algo que não tem preço no sentido de que não custa nada. Isso se fundamenta sobre a pergunta implícita “Quanto custa?”, e a óptica é toda transferida para quem “ganha” (e não “recebe”, portanto). O freebie é o que se pode ganhar livremente. A gratia gratis data, ao contrário, não se “ganha”, mas se “recebe”, e entra sempre em um relacionamento que fora do qual não se a compreende. A Graça não é um freebie, pelo contrário, para citar o teólogo Dietrich Bonhoeffer, é “um preço caro”. Ao mesmo tempo, a Graça comunica-se por intermédio de mediações encarnadas.

A lógica da Graça cria “ligações” face-to-face, isto é, “cara a cara”, como é típico da lógica do dom, algo que, ao contrário, é estranha de per si à lógica do peer-to-peer, ou seja, “nó a nó”, que, em si própria, é uma lógica de conexão e de troca, não de comunhão. E uma “face” jamais é redutível a um simples “nó”. Eis, por conseguinte, uma obrigação específica do cristão em Rede: fazê-la amadurecer e passar de lugar de “conexão” para lugar de “comunhão”. O risco desses tempos é exatamente o de confundir esses dois termos. A conexão, por si só, não basta para fazer da Rede um lugar de compartilhamento plenamente humano. Trabalhar no sentido de tal compartilhamento é obrigação específica do cristão. Por outro lado, se o “coração humano anela por um mundo em que reine o amor, onde os dons sejam compartilhados”, como escreveu Bento XVI [14], então a Rede pode ser verdadeiramente um ambiente privilegiado em que essa exigência profundamente humana pode tomar forma.

A autoridade entre a transmissão e o testemunho

Nessa linha de reflexão, encontra-se o problema da autoridade na Igreja e nas mediações eclesiásticas em um sentido mais amplo. A Rede, por sua natureza, é fundada sobre link, ou seja, sobre ligações intrincadas, horizontais e não hierárquicas. A Igreja vive uma outra lógica, de uma mensagem concedida, isto é, recebida, que “fura” a dimensão horizontal. Não somente isso: uma vez perfurada a dimensão horizontal, ela vive do testemunho autorizado, da tradição, do Magistério: essas são todas palavras que parecem disputar com uma lógica de Rede. No fundo, podemos dizer que parece prevalecer na web a lógica do algoritmo Page Rank do Google. Conquanto em fase de superação, isso, ainda hoje, determina para muitos o acesso ao conhecimento. Fundamenta-se na popularidade: no Google é mais acessível o que é mais “linkado”, consequentemente são as páginas web que estão mais de acordo. O seu fundamento está no fato de que os conhecimentos são, por conseguinte, maneiras de compreensão para ver as coisas. Para muitos, essa parece a melhor lógica para examinar a complexidade. Mas a Igreja não pode esposar tal lógica, que, em suas últimas consequências, é exposta ao domínio de quem sabe manipular a opinião pública. A autoridade não desaparece na Rede e, pelo contrário, ela arrisca estar ainda mais oculta. E de fato, a pesquisa, hoje, está se voltando para encontrar outra métrica para os motores de busca, que são mais de “qualidade” do que de “popularidade”.

Todavia, não obstante os problemas aqui acenados, existe também um aspecto importante sobre o qual refletir, e que parece, hoje, de grande importância: a sociedade digital não é concebível e compreensível somente por intermédio dos conteúdos transmitidos, mas, principalmente, por intermédio das relações: a troca de conteúdos, hoje, na época das redes sociais, acontece nos relacionamentos. É necessário, em vista disso, não confundir a “nova complexidade” com “desordem”, e “agregação espontânea” com “anarquia”. A Igreja é chamada a aprofundar principalmente o exercício da autoridade em um contexto fundamentalmente de rede e, consequentemente, horizontal. Parece claro que a carta para jogar é a do testemunho autorizado.

A lógica das social networks faz-nos compreender, melhor do que antes, que o conteúdo compartilhado é sempre estreitamente ligado à pessoa que o oferece. Não há, de fato, nessas redes nenhuma informação “neutra”: o homem está sempre diretamente implicado naquilo que comunica. Cada um é chamado a assumir a própria responsabilidade e o próprio papel no conhecimento. Nesse sentido, o cristão que vive imerso nas redes sociais é chamado para uma autenticidade de vida bastante exigente: ela afeta diretamente os valores da sua habilidade de comunicação. De fato, escreveu Bento XVI na sua recente mensagem para a 45.ª Jornada das Comunicações Sociais, “quando as pessoas trocam informações entre si, estão já compartilhando a si próprios, a sua visão de mundo, as suas esperanças, os seus ideais”. A tecnologia da informação, contribuindo para criar uma rede de conexão, portanto, parece ligar mais estreitamente amizade e conhecimento, impulsionando os homens a tornarem-se “testemunhas” daquilo sobre o qual fundam a própria existência.

Se uma vez o testimonial era uma figura autorizada especial, hoje, todos, a seu modo, são solicitados a tornarem-se um. Prefigura-se, consequentemente, um impulso renovado para o “misterioso encontro entre a possibilidade tecnológica das linguagens da comunicação e a abertura do espírito à iniciativa iluminada do Senhor nos seus testemunhos” [15]. Uma proclamação do Evangelho que não passa pela autenticidade de uma vida quotidiana pessoal compartilhada permaneceria, hoje, mais do que nunca, como um flatus vocis, como uma mensagem expressa em um código compreensível talvez pela mente, mas não pelo coração. A fé, portanto, não somente se “transmite”, mas, sobretudo, pode ser despertada no encontro pessoal, nos relacionamentos autênticos.

A Igreja em Rede é chamada, consequentemente, não somente para uma “transmissão” de conteúdo, mas principalmente para um “testemunho” em um contexto de relações amplas, constituídas por crentes de cada religião, por não crentes e por pessoas de cada cultura. A autoridade, hoje, joga-se muito sobre o plano do testemunho autorizado que não rompe a mensagem das relações “virtuosas” que é capaz de criar.

Como pensar a Rede teologicamente?

A Rede, como temos visto até este momento, coloca desafios verdadeiramente significativos para a compreensão da fé cristã. A cultura digital tem a pretensão de tornar o ser humano mais aberto ao conhecimento e aos relacionamentos. Até aqui, identificamos alguns dos tantos nós críticos que essa cultura coloca à vida de fé e à Igreja.

Talvez, por conseguinte, seja chegado o momento de considerar a inteligência da fé na época da Rede, ou seja, a reflexão sobre a conceptibilidade da fé à luz da lógica da Rede. Trata-se da reflexão que nasce da questão de como a lógica da Rede, com as suas metáforas poderosas que trabalham com o imaginário, bem como com a inteligência, pode moldar o entendimento da busca por Deus, a maneira de compreender a Igreja e a comunhão eclesial, a teologia da Graça e assim por diante.

A reflexão é muito mais importante, porque resulta fácil constatar que mais e mais a Internet contribui para construir a identidade religiosa das pessoas. E, se isso é verdade em geral, será cada vez mais para os assim chamados “nativos digitais”. Fides quaerens intellectum e isso também em nossos dias, em que a lógica da rede assinala a nossa compreensão da realidade, a nossa forma de pensar, conhecer, comunicar, viver.

* * *

A imagem que talvez expressa melhor o papel e a pretensão do cristianismo na comparação com a cultura digital é a do “escultor de sicômoros” tomada emprestada do profeta Amós (7, 14) e interpretada por São Basílio.

O então cardeal Ratzinger, em seu discurso em um congresso com o título de Parábolas Mediáticas [16], usou essa afortunada imagem para dizer que o cristianismo é como um talho em uma figueira. O sicômoro é uma árvore que produz muitos frutos que ficam sem gosto, insípidos, se não se os talhar fazendo sair o suco. As frutas, os figos, por consequência, representam para Basílio a cultura de seu tempo. O Logos cristão é um talho que permite a maturação da cultura. E o talho exige sabedoria porque é bem feito e no momento certo. A cultura digital é abundante de frutas para entalhar, e o cristão é chamado a executar essa obra de mediação entre o Logos e a cultura digital. E a tarefa não está imune da dificuldade, mas parece hoje ser mais exigente do que nunca. Em particular, é necessário começar a pensar a Rede teologicamente, mas também a teologia na lógica da Rede.

Notas:

1 – BENTO XVI. Caritas in veritate, n. 69.

2 – Cf. SPADARO, A. Web 2.0. Reti di relazione. Milano:Edições Paulinas, 2010.

3 – A intervenção tinha o título «Comunicação e cultura, novos percursos de evangelização no Terceiro Milênio» (9 nov. 2002). Disponível em: .

4 – Cf. RAHNER, H. L’ecclesiologia dei Padri. Simboli della Chiesa. Roma: Paoline, 1971.

5 – Cf. DULLES, A. Models of the Church. Garden City (NY): Image Books, 1987.

6 – FRIESEN, D. J. Thy kingdom connected. What the church can learn from facebook, the internet, and other networks. Grand Rapids (MI): Baker Books, 2009. p. 31.

7 – Catechismo della Chiesa Cattolica. Compendio n. 152.

8 – BREWIN, K. Sign of emergence. A vision for church that is organic, networked, decentralized, bottom-up, communal, flexible, always evolving. Grand Rapids (MI): Baker Books, 2007.

9 – FRIESEN, D. J. Thy Kingdom Connected…, op. cit., p. 80 e ss.

10 – Ivi, n. 114.

11 – Cf. LÈVY, P. Il virtuale, Milano: Raffaello Cortina, 1997. p. 10.

12 – Catechismo della chiesa cattolica. Compendio n. 147.

13 – Ivi, n. 156 e 158.

14 – Mensagem para a Jornada das Comunicações Sociais de 2009.

15 – JOÃO PAULO II. Messaggio per la XXIII Giornata Mondiale delle Comunicazioni Sociali, op. cit.

16 – Parábolas Midiáticas é o título de um Congresso nacional que foi organizado pela Conferência Episcopal Italiana, de 7 a 9 de novembro de 2002. O discurso foi pronunciado durante a sessão final.

Fonte:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/46062-espiritualidade-e-elementos-para-uma-teologia-da-comunicacao-em-rede

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